novembro 27, 2003
Café nunca mais
Deus é um tédio. Os trezentos e sessenta e cinco pleromas não passam de transtornos quase acidentais no sono de uma divindade absoluta perdida em Si Mesma, encantada em deleite indelével por Sua própria majestade. O infinito Deus recurva-Se sobre Si Mesmo, em eterno êxtase, e não Tem olhos nem ouvidos nem pensamentos para mais nada que não Sua excelsa glória imaterial. (...) Todos os mundos possíveis não passam de ficção em estado bruto, escrita pelo mesmo motivo por qual se escalam montanhas ou se atritam mucosas.
Em riba um pedaço perdido e absurdamente descontextualizado do meu novo livro, uma narrativa longa que, com alguma sorte e paciência, publico no próximo ano. Os críticos dirão que seu tema central é a criação movida apenas e somente pelo prazer da criação. Eu não direi que versa sobre um dedo de negro com uma unha que, ao descobrir-se um dedo negro com unha, tenta renunciar a qualquer privilégio concedido a minorias mas é frustrado em seu intento por uma entidade que vive dentro d'Uma Máquina, mas poderia dizer (não o farei) que é sobre totinhas.
Grudo o fragmento para sofismar alguma coisa sobre a importância da inutilidade, à guisa de remédio para a insônia. Chama-se de útil aquilo ou alguém que serve para alguma coisa definida, que traz vantagens específicas, que cumpre alguma função para a qual foi criado, que é produtivo ou colabora para um aumento de produtividade. Algo assim. Não me estendo para não me confundirem com um roteiro do Jorge Furtado (caso a Leandra Leal venha junto, podem me confundir à vontade, e agradeço).
Na vida, assim como na literatura, na culinária ou na exploração de pólos, a coisa mais fácil de encontrar são defensores encarniçados do hedonismo (entreter-se à farta, de modo raso e insaciável) e da constipação (levar tudo muito a sério em três vias carbonadas, e é melhor ter uma ideologia por trás). Defendendo seus pontos de vista com ações, argumentos ou com um double hit combo, não importa, eles estão por todos os cantos. Difícil mesmo é ter a alegria de encontrar-se com os apóstolos da inutilidade, esses pândegos.
Uma literatura que, não, não, estou falando demais de literatura, vou perder leitores, que horror. Sexo, então. Peço perdão aos ultramontanos e lembro aos demais que sexo bom é sexo inútil, desprovido até o último gameta de seus fins reprodutivos. Uma relação sexual que não sirva para os fins constipados da reprodução ou para a busca hedonista por um suposto prazer é totalmente desnecessária, e é nisso que reside o seu encanto (assim como na literatura que, certo, certo, eu paro). Você entende, não entende? Eu sei que entende. É inútil, é desnecessário, não serve a fim algum; logo, é a essência do que o humano tem de melhor, por ser artificial e transcender a abominação chamada natureza que, como todos sabemos, é Má e, convenhamos, um tanto vulgar.
A literatura, o sexo, a culinária, a vida e a exploração de pólos ficam ainda mais inúteis, artificiais e sublimes com a adição de camadas infinitamente superpostas de referências - que, por apontarem para criações e percepções humanas e serem pós-naturais, são Boas. É nesse campo que a desutilidade brilha com mais gosto. Se é bom quando um leitor entende algo que você escondeu entre uma linha e outra - pisca, pisca - é melhor ainda quando uma senhorita coberta de toda a inutilidade do mundo entende todas as suas desnecessárias piadas de alcova e ainda colabora para ampliar o repertório. Cravar a bandeirola no exato centro, sem mais ninguém para assistir. Happy happy, joy joy.
Mas a vida é difícil, como é difícil. Ninguém me entende, tenho todos os motivos para me rebelar, virar romântico, criar um blog. Graças à minha boa educação, resisto. Sempre que eu digo com toda a razão do mundo (como sempre) que Hitler era quase um comunista as pessoas ainda fazem caretas. Grandes rivalidades só são possíveis entre semelhantes, tento argumentar, mas me enchem de croques com o olhar. Me sinto um mujique ébrio, quase passo a dar cabeçadas na parede, mas como ainda prezo a compostura (que é artificial, desnecessária, logo traz a essência do melhor do humano, e assim transcende o horror da natureza etc.) apenas baixo os olhos por um segundo, repito mentalmente optimism is true moral courage, sorrio com o peso de meus óculos e passo a discorrer sobre a primeira edição de Advanced Dungeons & Dragons ou meus tempos de escoteiro.
(Digitar a esmo, sem raciocínio prévio, é perfeitamente desútil. Continuo sem sono, mas ganhei um sorriso besta. Aproveito a oportunidade para mandar uma banana póstuma para o sujeito constipado que achou que colocar um losango amarelo em uma bandeira verde era uma idéia formidável.)
Por Daniel Pellizzari em novembro 27, 2003 5:12 AM
